terça-feira, 10 de julho de 2012

Vila Real de Santo António e o Urbanismo Iluminista






A inauguração da exposição “Vila Real de Santo António e o Urbanismo Iluminista”, no passado dia 19 de Junho de 2010, integra-se no ciclo de exposições “Algarve – Do Reino à Região” e apresenta-nos um estudo levado a cabo pelo CEPHA (Centro de Estudos do Património e História do Algarve), acerca da maior e mais significativa realização iluminista efectuada em Portugal: a edificação de Vila Real de Santo António.

O nascimento desta vila de fundação régia resultou da estratégica política, económica e territorial concebida pelo Marquês de Pombal, em finais de 1773, visando a afirmação do Estado Português face ao Estado Espanhol. A nova vila iluminista, voltada estrategicamente para Espanha, viria a ser inaugurada a 13 de Maio de 1776, assinalando o aniversário de Sebastião José de Carvalho e Melo e reforçando a barreira natural que marca a divisão política e administrativa de uma fronteira que remonta à segunda metade do século XIII, aquando da conquista do Reino do Algarve aos mouros por D. Afonso III. Deste modo, a nova vila régia não só desempenharia as funções do extinto aglomerado populacional de Santo António de Arenilha, como também impedia o contrabando, a evasão fiscal, e a livre pesca castelhana praticada no mar de Monte Gordo.
A presente exposição, fruto de uma iniciativa da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e do estudo de uma promissora geração de licenciados em Património Cultural formados pela Universidade do Algarve, encontra-se estrategicamente repartida por quatro diferentes núcleos, o que proporciona ao visitante um agradável périplo pelo centro histórico da cidade. Assim sendo, podemos encontrar na Avenida da República o núcleo “Na Margem direita do Guadiana face a Espanha”; na Rua da Princesa, “A Fundação de Vila Real de Santo António”; na Praça Marquês de Pombal, “Vila Real de Santo António e o Urbanismo Ilumi-nista”; no Largo António Aleixo, “Entre o Guadiana e o Mar: o desenvolvimento económico”; e ainda os painéis informativos patentes no Largo Lutgarda Guimarães de Caires.
Pretende-se, desta forma, dar a conhecer ao visitante o património histórico de Vila Real de Santo António desde as suas origens, aludindo às actividades económicas que levaram ao seu desenvolvimento e urbanismo singular, fruto de uma época que se pretendeu iluminada pela racionalidade setecentista.
De um modo geral, trata-se de uma exposição bem estruturada e abundantemente ilustrada, aspecto esse que parece do agrado dos locais que, à guisa de curiosidade, entretêm-se a verificar as diferenças arquitectónicas existentes entre as fotografias dos inícios do século XX e a actualidade. Exposições como “Vila Real de Santo António e o Urbanismo Iluminista”, presente ao público até 20 de Novembro de 2010, são a prova cabal de que existe efectivamente uma oferta cultural no contexto algarvio e de que existem técnicos de património à altura deste tipo de projectos e iniciativas no âmbito da cultura.

Jornal do Algarve, Nº2789, 16 de Setembro de 2010, p.19.

domingo, 8 de julho de 2012

Faro e Tânger: cidades geminadas há 27 anos


Assinala-se no dia 26 de Junho de 2012, os 27 anos da geminação Faro – Tânger. Contudo, saberão os munícipes farenses a que se deve esta geminação? Aliás, saberão as entidades políticas responsáveis por esta geminação quais os laços históricos que unem as duas cidades envolvidas? É possível que não, mas a verdade é que também ninguém espera que os políticos sejam pessoas assaz esclarecidas… Desengane-se quem romanticamente reivindica o passado islâmico da cidade de Faro enquanto causa única desta geminação. É certo que os mais de cinco séculos de domínio muçulmano em Faro deixaram marcas inegáveis na identidade patrimonial da cidade e da região… mas será essa a única razão? Desengane-se quem inocentemente acredita que uma das causas da geminação possa residir na estória de Faro ter sido conquistado sem derramamento de sangue (basta ler a Crónica da Conquista do Algarve para percebermos que houve confrontos antes de Sancta Maria de Faroon ser entregue a D. Afonso III). Desengane-se quem encontra no Foral dos Mouros Forros de Silves, Tavira, Loulé e Santa Maria de Faro um documento que visa proteger a comunidade islâmica dos judeus e dos cristãos… A verdade é que mais razões históricas unem estas duas cidades à beira mar plantadas.

Por várias vezes tentaram os portugueses conquistar Tânger sem sucesso. Tentou-o o infante D. Henrique e D. Afonso V, até que finalmente a cidade foi ocupada pelos portugueses, após a conquista de Arzila, em 1471. Tânger viria a ficar sob domínio português até 1661, ano em que é cedida à Inglaterra como dote de Casamento entre a filha de D. João IV, Catarina de Bragança, e o rei Carlos II de Inglaterra. Após o abandono de Tânger, uma parte considerável das antigas famílias portuguesas daquela praça desembarcaram em Faro, optado por se fixarem na “cidade principal do Reyno do Algarve”. Romero de Magalhães, em O Algarve Económico 1600 – 1773, estima mesmo que Faro recebeu em 1662, 78 casais, com 270 pessoas, vindas de Tânger.

Ainda assim, serão estas todas as causas para a geminação destas duas cidades? Não. De facto, os laços entre os dois países e as duas cidades só viriam a estreitar-se após a assinatura do Tratado de Paz entre Portugal e Marrocos de 1774, pelo que a nomeação de um cônsul português em Tânger acabou por resultar numa peça fundamental no êxito das relações diplomáticas luso-marroquinas. Sucederam-se embaixadas entre ambos os Estados e de tal forma a confiança cresceu que, em 1780, uma parte do tesouro de Marrocos foi colocado em Lisboa, sob a custódia da rainha D. Maria I. Othman Mansouri, da Universidade de Casablanca, refere mesmo que por essa altura “uma intensa actividade comercial desenvolveu-se entre as cidades de Tânger e Faro”, nomeadamente no que se refere a produtos como frutos secos, azeite ou manteiga.

Com a morte do califa Muley al-Yazid, em14 de Fevereiro de 1792, Portugal apoiou abertamente Muley al-Suleiman na sua pretensão ao trono. Desta feita, a Coroa portuguesa deu instruções ao cônsul português em Tânger, proibindo os navios portugueses de frequentarem os portos controlados pelos paxás rebeldes. O apoio do governo português foi de tal modo importante para Muley al-Suleiman que este deu ordem para serem exportados para Portugal a maior quantidade possível de trigo e gado, quando em 1796 os portugueses sentiram a escassez destes produtos.

A verdade é que Marrocos precisava de auxílio militar português para vencer os rebeldes e pacificar o país. Com efeito, Marrocos recebeu de Portugal um considerável auxílio militar em Junho de 1797. Esta ajuda militar portuguesa permitiu que o sultão pudesse entrar em Marraquexe pela primeira vez, em Julho de 1797. De facto, a paga pelo apoio militar português não tardou, nomeadamente durante a guerra contra os franceses e no que se refere à exportação de cereais e gado: os navios de guerra portugueses encontravam refúgio em Tânger e ali iam livremente reabastecer-se. De um modo geral, bem podemos concluir que o apoio de Marrocos nos anos da Guerra Peninsular foi de extrema importância para Portugal e para o Algarve, uma vez que a viabilização de víveres contribuiu significativamente para o êxito do esforço de guerra contra a ocupação francesa.

Reunidas todas estas razões carácter histórico bem nos podemos voltar a perguntar o porquê da geminação entre Tânger e Faro em 26 de Junho de 1985… Por geminação não devemos compreender um protocolo oficial de modo a fomentar intercâmbios culturais? Não deverão duas cidades geminadas potenciar o desenvolvimento intercultural com vista à aproximação entre os povos irmanados? Se assim é o fica a desconfortável impressão que pouco tem sido feito neste sentido. Para os mais desatentos fica ainda o convite para uma visita à Place de Faro, em Tânger, assim como à Praça de Tânger, em Faro, onde é possível encontrar duas inscrições (uma em Português e outra em árabe), relativas à geminação destas duas cidades.



Jornal Postal do Algarve, Nº 1082, 22 de Junho de 2012, p.23.