sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Lutgarda Guimarães de Caires – Nascida há 140 Anos


Lutgarda Guimarães de Caires – Nascida há 140 Anos

 


 
O presente mês de Novembro de 2013 assinala os 140 anos do nascimento de uma das mais ilustres figuras de Vila Real de Santo António: a poetisa Lutgarda Guimarães de Caires. Ilustre? Sim, de facto… mas para quem? Já em 2007 – ano em que se reeditou Lutgarda Guimarães de Caires, Uma Algarvia Ilustre - escrevia o saudoso Prof. Doutor António Rosa Mendes: “é uma ilustre vila-realense; e é também uma ilustre desconhecida para os vila-realenses”. Lamentavelmente, parece que tal condição não mudou muito (para usar um eufemismo) desde 2007 até à actualidade; os seus conterrâneos desconhecem o legado cultural da supra citada, e a estátua que bem intencionadamente lhe presta homenagem acabou por resumir-se a pano de fundo para duvidosas sessões fotográficas de teor facebookiano. Compete-nos, portanto, expor um pouco da sua vida e obra de maneira a assinalar a efeméride.

Lutgarda Guimarães de Caires nasceu em Vila Real de Santo António, em 13 de Novembro de 1873. Deixou o Algarve ainda jovem, passando a viver em Lisboa, onde veio a casar com o advogado João de Caires, homem culto e aficionado de tertúlias e serões culturais. O falecimento de uma filha parece estar na origem da sua poesia melancólica e das regulares visitas às crianças enfermas no Hospital D. Maria Estefânia. Foi ela, aliás, a impulsionadora do Natal dos Hospitais, então designado Natal das Crianças dos Hospitais. A sua acção cívica passou pela denúncia das humilhantes condições em que viviam as mulheres nas cadeias portuguesas. Para além disso, reivindicou mais direitos para as mulheres, transformando-se numa pré-feminista, o que acaba por aproximá-la (com as devidas diferenças) de figuras como Maria Veleda, outra algarvia que se evidenciou no contexto do movimento feminista português. Lutgarda faleceu em 1935. Foi autora de vários livros, quer no domínio da prosa quer no domínio da poesia. Algumas destas obras, como “Sombras e Cinzas”, “Pombas Feridas”, “Violetas” ou “Glycinias” podem ser consultadas na Biblioteca Vicente Campinas. Mas perguntemo-nos: que tem sido feito no sentido de preservar a sua memória e o seu legado cultural? Em 1937, o seu nome foi dado a um largo, em Vila Real de Santo António. Em 1966 foi apresentado um busto junto ao rio Guadiana (actualmente desterrado para local menos visitado) e, em 2005, foi erguida uma estátua de corpo inteiro, da autoria do escultor vila-realense Nuno Rufino. Porém, e ainda que todas estas iniciativas sejam louváveis, não nos devemos esquecer que as estátuas são mudas e que foi o uso da palavra que evidenciou Lutegarda. Já dizia o simbolista Camilo Pessanha, no seu poema Estátua: “cansei-me de tentar o teu segredo”. Talvez esteja na hora de desvendar o quase segredo que é obra de Lutgarda Guimarães de Caires, através de encontros literários ou de outras iniciativas que perpetuem o seu legado…

 

Jornal do Baixo Guadiana, Nº162, Novembro de 2013, p.19.

domingo, 6 de outubro de 2013

“El asentamiento fenicio más occidental de la historia está en Ayamonte”?! Não, não está...


“El asentamiento fenicio más occidental de la historia está en Ayamonte”?! Não, não está…

 

Foi no passado dia 12 de Setembro de 2013 que o jornal espanhol La Vanguardia publicou uma notícia intitulada “El asentamiento fenicio más occidental de la historia está en Ayamonte”. Segundo este órgão de comunicação, os especialistas do Instituto Arqueológico Alemão afirmaram tratar-se do assentamento fenício mais ocidental da História, avançando uma cronologia de 2800 anos para datar o sítio arqueológico em questão. Ora, estas declarações não só são altamente contestáveis, como traduzem um brutal desconhecimento dos estudos arqueológicos que, nas últimas décadas, têm vindo a ser realizados em Portugal.

A directora do Instituto, Dirce Marzoli, ainda referiu que em alguns pontos de Portugal foram encontrados vestígios que indicam uma possível ocupação fenícia. Possível?! Ora, não saberá a senhora que na outra margem do Guadiana, em Castro Marim, foi identificado um assentamento fenício e que já deu origem à publicação de vários trabalhos científicos? Isto já para não falar de outros sítios em contexto algarvio – a ocidente de Ayamonte – como Tavira ou do Cerro da Rocha Branca, em Silves. De resto, a presença fenícia no ocidente peninsular está também atestada noutros pontos correspondentes ao território português. É o caso de Alcácer do Sal, Setúbal, Abul, Almaraz, Santa Olaia, para além dos materiais identificados em Conímbriga e que atestam as relações que a população autóctone que ali habitava mantinha com o mundo fenício.

Ao que parece, continua a subsistir, em alguns círculos, a errónea ideia da inexistência de estabelecimentos fenícios a ocidente de Cádiz. Muitas declarações, de alegados entendidos na matéria, omitem estudos recentes, esquecem trabalhos pioneiros de portugueses ou, na melhor das hipóteses, explicam os testemunhos arqueológicos disponíveis no extremo ocidente da Península num contexto de relações comerciais pontuais e muito esporádicas. Como exemplo podemos apontar a obra dirigida por Olmo Lete-Eugénia, editada em 1987, “Tiro y las Colónias Fenicias de Occidente”, onde nem sequer é considerada tal presença no território português. A verdade é que moderna investigação portuguesa tem vindo a demonstrar a inequívoca presença de estruturas comerciais e o forte impacto cultural fenício, desde o estuário do rio Guadiana ao rio Mondego. Nesse sentido, alertamos para a falta de rigor científico de alguns artigos avançados pelos órgãos de comunicação. Não nos devemos esquecer que o mediatismo em torno de alguns estudos arqueológicos são fundamentais para que os mesmos não morram na praia…

 

Jornal do Baixo Guadiana, Nº159, Outubro de 2013, p.21.

sábado, 14 de setembro de 2013

Os 500 anos da Conquista de Azamor, no Algarve Dalém Mar.


Os 500 anos da Conquista de Azamor, no Algarve Dalém Mar.

 
O presente mês de Setembro de 2013 assinala um dos maiores feitos militares da história da expansão ultramarina portuguesa: a conquista de Azamor (em árabe أزمور‎), em Marrocos. Segundo cronistas como Rui de Pina ou Garcia de Resende, Azamor, temendo ser tomada pela força das armas portuguesas, tornou-se tributária de D. João II, em 1486. D. Manuel I ainda confirmou os termos do contrato com Azamor, em 1497, porém, a fidelidade dos seus habitantes à Coroa portuguesa foi muito irregular depois de 1502, revoltando-se contra a soberania portuguesa e deixando de pagar os tributos acordados. Em 1508, Rodrigues Bérrio, um armador de Tavira que costumava ir pescar sáveis a Azamor, deu conhecimento a D. Manuel I das grandes divisões entre os seus habitantes e do desejo que alguns manifestavam em se tornar súbditos de Portugal. Atendendo a esses motivos, foi enviada uma armada (50 navios e 2.500 homens) sob o comando de D. João de Menezes, com o apoio de um príncipe oatácida que já estivera em Portugal, Muley Zião. Porém, a expedição fracassou, não só porque o aliado mudara de posição, mas também porque os meios envolvidos se revelaram insuficientes para tomar a praça. As intenções em tomar Azamor mantiveram-se até que, em 1513, deu-se um levantamento geral em Portugal, num ambiente de vibração patriótica registado por Gil Vicente, no seu Auto da Exortação da Guerra.

De acordo com Damião de Góis, (Chronica do Serenissimo Senhor Rei D. Manoel, III, Capítulo XLVI) os preparativos resultaram na maior armada organizada no reinado do venturoso; mais de 400 navios e cerca de 25000 homens, entre soldados, cavaleiros e infantes, comandados por D. Jaime, o duque de Bragança. Quando a armada partiu de Lisboa, “foi lançar ancora na baia do Faram, no regno do Algarue”, onde se lhe juntaram mais navios com combatentes algarvios. Muitos membros da grande fidalguia do reino participaram nesta expedição, entre os quais Rui Barreto, alcaide-mor de Faro e vedor da fazenda do Reino do Algarve, que ia investido como capitão de Azamor, e D. João de Menezes, que ia investido como capitão de campo. Com o desembarque do grosso das tropas na baia de Mazagão, em 28 de Agosto, os portugueses atacaram por terra e pelo rio no primeiro dia de Setembro. Os defensores de Azamor, impressionados com o poderio do exército português, acabaram por abandonar a cidade, procurando refúgio nas regiões vizinhas. A notícia da tomada da cidade correu rapidamente por toda a Enxovia e Duquela, pelo que as povoações de Almedina e Tide acabaram por ser abandonadas. Muitos mouros pediram então a paz, alegando quererem ser vassalos e pagar tributo a el-rei de Portugal. Finalmente, a 3 de Setembro, o duque de Bragança entrava na cidade e D. Manuel I acrescentava mais uma praça marroquina ao império português.

 
Jornal do Baixo Guadiana, Nº158, Setembro de 2013, p.21

domingo, 4 de agosto de 2013


O Concelho de Vila Real de Santo António e as Guerras Liberais

 


As designadas Guerras Liberais, resultantes dos confrontos entre o partido liberal de D. Pedro IV e o partido absolutista de D. Miguel, deram origem a inúmeros episódios dignos de registo, como o Cerco do Porto, entre 1832 e 1833, ou a Batalha do Cabo de São Vicente, em 1833. Porém, também nos contextos locais houve episódios muito interessantes que, pelo seu valor histórico-patrimonial, merecem ser partilhados.

O Governador da praça de Vila Real de Santo António era, por esses anos, Sebastião Martins Mestre, oficial de infantaria que se distinguiu na resistência contra as invasões francesas. Numa carta datada de 18 de Janeiro de 1810, tecia o Marquês da Vila de Olhão rasgados elogios a Sebastião Martins Mestre pelo seu “patriotismo, honra e actividade na defesa da Gloriosa Religião do Príncipe e da Nação”. Contudo, e ainda que Sebastião Martins Mestre se tenha demonstrado entusiasta da Revolução Liberal Portuguesa de 1820, acabou por tornar-se num dos mais acérrimos defensores do partido absolutista. Ao ser nomeado governador da praça de Vila Real de Santo António, deu origem a uma administração pautada por perseguições aos simpatizantes do partido liberal e exercendo contra estes todos os tipos de crueldades. Segundo Ataíde de Oliveira, o governador perseguiu o pároco de Vila Real, José da Encarnação Almeida, o sargento de milícias, José da Cruz Azevedo, e toda a família Pessanha, que viu os seus bens serem confiscados e foram desterrados para Castro Verde. Entretanto, no dia 24 de Junho de 1833, desembarcaram na praia da Manta Rota as tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira. Não tardaram os confrontos entre o governador de Vila Real de Santo António e os constitucionalistas, que acabaram por derrubar o poder local absolutista. Foi levantado um processo contra o ex-governador Sebastião Martins Mestre, pelo que acabou por ser preso de modo a responder em Lisboa pelos crimes de que era acusado. Ironicamente, foi nomeado comandante da escolta um membro da mesma família que o ex-governador tinha perseguido: Eusébio Frei Pessanha. Quis o destino que o acusado não chegasse a Lisboa, onde deveria ser julgado. Na madrugada da partida, um indivíduo emboscou a escolta. Lançando-se sobre o acusado, desferiu-lhe uma punhalada mortal, fazendo justiça pelas próprias mãos… E quem era este individuo? Era uma das pessoas anteriormente perseguidas pelo ex-governador, o sargento de milícias, José da Cruz Azevedo. O comandante da escolta ainda correu em auxílio do preso, mas era tarde demais; o antigo governador de Vila Real de Santo António tinha sido assassinado antes do julgamento. Mostra-nos a História que muitas vezes a sede de justiça popular sobrepõe-se à própria lei, frequentemente moldada em função dos interesses das classes instaladas no poder. É algo em que a classe política deveria reflectir…

 

Jornal do Baixo Guadiana, Nº156, Junho de 2013, p.21.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Apresentação de "Encontros Improváveis" e "Património Bukowsky", por José Bivar


Dois livros:

Encontros Improváveis(Edições Mandil, Abril 2013)


Património Bukowski(Lua de Marfim, Janeiro 2013)


Dois autores:

Fernando Esteves Pinto (FEP), nascido em 1961, natural de Cascais e residente no Algarve (Olhão) há várias décadas, autor sobejamente conhecido e integrado no grupo da nova geração de talentos nacionais (José Luís Peixoto, Walter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares e José Carlos Barros, etc…) com várias obras publicadas e premiadas na área da poesia, romance e ensaio. Também Editor (revista de literatura Sulscrito e 4aguas).

Fernando Pessanha (FP) nascido em 1980, natural de Vila Real de Santo António, músico, compositor e historiador (“A cidade Islâmica de Faro” edições Mandil 2013), membro da CEPHA; sendo “Encontros Improváveis” a sua primeira obra de ficção.

Com uns representativos 20 anos de diferença na idade, estão, no entanto, os dois autores, irmanados por “improváveis” afinidades e cumplicidades geradas no quadro da movida cultural do Portugal democrático e Europeu contemporâneo, sobretudo a partir da mudança de paradigma que desde os anos 80 veio anunciar uma sociedade pós-industrial e de informação assente no sector terciário dos serviços e de classe média generalizada. Sociedade mais a fim de estabelecer laços e cumplicidades intergeracionais, culturais, raciais etc… do que os tradicionais blocos classicistas assentes em posturas de cariz ideológico e sectário, actualmente tidos como redutores e castrativos, produtos ultrapassados da lógica modernista das sociedades industrializadas e tecnocráticas anteriores à nova sociedade de informação.

Nascidos e criados em famílias oriundas do mundo estratificado do trabalho com poucos ou nenhuns recursos literários (casa sem livros), obrigados a assegurar desde cedo a sua autonomia e subsistência, entram no mundo da criação resgatando o tempo às rotinas da vida profissional, criando nas horas escassas, nos intervalos da labuta. (Património Bukowski de FEP; Os Machados, A Livreira e o Escritor de FP).

A pressão de uma situação, a todos os títulos periférica e suburbana, resultante dessa condição socioeconómica e cultural vai-se reflectir no enfoque social da sua produção marcada pelo desencanto, pelo morbos de uma redução existencial gerada numa ausência de futuro ou ideal, condição assaz comum nas recentes gerações das sociedades ocidentais em capitalismo terminal (Saga in FEP e A Livreira e o Escritor in FP). É neste clima que ambos os autores se movem numa estratégia de distanciamento pela ironia e de exploração mórbida das relações sociais marcadas pelo abandono dos sujeitos ao solipsismo narcísico e autista de um ambiente em constante mutação. Impossibilitados de estabelecer afectos estáveis e desejáveis, caem num universo de incomunicabilidade, inclusive consigo próprios (culto do silêncio e do vazio), gerador duma sensação de sortilégio e acaso marcados pelo absurdo e equívoco nos encontros/desencontros sempre improváveis, algo inúteis e desviantes da amalgama urbana da vida acelerada da competição generalizada (Observação do Pensamento, Saga, in FEP; e todo o livro de FP). Traços de carácter que se foram instalando na modernidade, com autores como Kafka, Poe, Pessoa, passando por Joyce, Becket, Sartre, Camus, Vergílio Ferreira, entre muitos outros, onde é patente a progressiva perda dos referentes que durante séculos apoiaram a narrativa literária.

Deus, o Homem, a comunidade implodiram sob a pressão do progresso tecnológico isolando o sujeito numa orfandade ôntica, dir-se-ia amnésica, afundando-o num niilismo sem recurso. O expressionismo brutalista e surdo deste modo existencial parece ser a única forma de comunicação pessoal e interpessoal (Saga, Coração da Cidade in FEP; A Psicóloga, O Acidente, in FP). O grito (lembrando o quadro de Munch e o não menos emblemático poema o UIVO de Alan Guinsberg), único esgar audível num universo nocturno povoado de fantasmas/zombies que circulam penosamente saindo e entrando na vida dos afectos como assombrações, num sonâmbulo microcosmos tão vivido quanto sonhado. O romance negro manifesto no goticismo de um Poe trespassa o clima de alguns contos de Pessanha (O Acidente), que surrealizando kafkaniamente (A Psicóloga), ora lançando-nos na teia dos equívocos Camusianos (A Madrasta; Os Machados) ou, na vertigem do sortilégio Sartiano (A Prima) vai-nos envolvendo no clima de uma psicologia existencial, especialidade fenomenológica comum à densa prosa de auto interpretação de Fernando Esteves Pinto, como em (Observação do Pensamento), acentuando a afinidade de ambos os escritores a uma abordagem de teor existencial.

É também recorrente a presença nas páginas das duas obras da única e fatal âncora do sujeito em desagregação: O Corpo Erotizado (A Madrasta, A Prima, Os Machados, de FP; Bukowski e Lydia Vance, Saga, Coração da Cidade de FEP). Centro vulcânico da compulsão sexual, o corpo, que exacerba e requisita em desespero salvífico, o eu concreto e coisificado, centro sensitivo, poço escuro da volúpia emocional e presencial do sujeito.

Dois autores cuja obra difere no estilo, recursos narrativos, maturidade e formação assinalando uma variação geracional do “estado de consciência” e de sociabilidade face à condição dominante da época, que teima em perdurar nesta espécie fim de tudo que habitamos. Idade terminal pronunciadora de enormes catástrofes, arrasta na sua queda os valores e as ideias, alicerces de qualquer sociedade humanista rumo a uma repelente trans-humanidade. Pesadelo que promove um gélido e idiota ser protésico: o andróide humanizado, o herdeiro da terra e mentor da saga iluminista que oferece a humanidade de barato, em sacrifício ao Deus Progresso, Pai da famigerada Modernidade e da sua colossal impostura.

É neste contexto que, penso, devem ser lidos estes dois livros: como núcleos de resistência humanista. Uma resposta de bem-humorada e fina ironia (Terapia dos Livros in FEP; e todos os contos de Encontros Improváveis de FP),dando-nos sinal positivo da subsistência e sobrevivência do sujeito soberano e imprevisível, capaz de alterar a actual condição e desafiar na sua anónima e épica luta as forças devastadoras que incautamente criou. Oxalá o consiga, no entanto, só a arte e a criação é capaz de proteger a individualidade e criar o distanciamento lúcido. Delas depende a compreensão necessária ao sentido de existência do Humano Sentido que nestes dois livros é superiormente questionado e equacionado à luz de uma profunda e contemporânea visão.


José Bivar
Bela Mandil, 9 de Julho de 2013.

 

domingo, 12 de maio de 2013


Vila Real de Santo António e Santo António de Arenilha

– Duas fundações, uma estratégia


 

O presente mês de Maio de 2013 assinala os 237 anos da maior e mais significativa edificação iluminista efectuada em Portugal: a fundação de Vila Real de Santo António. Contudo, também este ano de 2013 assinala uma data da maior importância para a História local: os 500 anos da fundação de Santo António de Arenilha. Ora, se o nascimento de Vila Real resultou da estratégia política, económica e territorial concebida pelo Marquês de Pombal, em finais de 1773, visando a afirmação do Estado português face ao Estado espanhol, que dizer da fundação de Arenilha? Com efeito, a nova vila iluminista, inaugurada em 13 de Maio de 1776, pretendia reforçar a barreira natural que marca a divisão política e administrativa entre os dois reinos, para além de impedir o contrabando, a evasão fiscal e a livre pesca castelhana praticada no mar de Monte Gordo. Porém, não foram os mesmos motivos que levaram D. Manuel I a mandar construir “nossa Villa darenilla que hora mandamos fazer e edifycar”? Sim, se bem que a fundação de Arenilha também pretendesse alertar as povoações vizinhas das investidas da pirataria moura, bastante activa na centúria de quinhentos.

A verdade é que muito se tem enaltecido a acção reformista (e mesmo despótica) do Marquês de Pombal, seguramente devido ao património edificado pombalino, como à proximidade cronológica que nos aproxima do século XVIII. Todavia, este espírito reformista e pretensamente iluminado pelas luzes da razão, não foi exclusividade do ministro de D. José I. Já o reinado de D. Manuel I, “o Venturoso”, tinha sido pautado por um conjunto de acções que visavam fortalecer o reino política e administrativamente, nomeadamente, através de conjuntos de reformas presentes nos forais manuelinos. Prova disso, para os concelhos do baixo Guadiana, são a carta de foral de Castro Marim, de 1504, a carta de foral de Alcoutim, de 1520, ou mesmo a carta de privilégio de 8 de Fevereiro de 1513, onde o monarca manda proceder à construção da vila de Arenilha. Efectivamente, a estratégia de D. Manuel I para a foz do Guadiana acabou por antecipar-se ao Marquês de Pombal em mais de dois séculos e meio, contudo, o avanço das águas do mar e a sistemática acção da pirataria berberesca acabaram por despovoar a “vileta” no decurso do século XVII. Ora, não fosse o tratado de paz assinado entre Portugal e Marrocos, em 1774, e bem que Vila real de Santo António poderia ter tido semelhante destino… Recordamos que D. José I faleceu em 1777, no ano seguinte à fundação da vila régia, pelo que o Marquês de Pombal e os seus ambiciosos projectos rapidamente foram votados ao abandono. Para a História ficam duas fundações, cada uma no seu respectivo século, mas unidas por uma estratégia tão comum quão intemporal.

 

Jornal do Baixo Guadiana, Nº155, Maio de 2013, p.21.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Algarve e o crescente interesse na História do al-Andaluz



Foi entre o dia 2 e o dia 4 de Maio de 2008 que se realizou, em Vila Real de Santo António, o Congresso Internacional “Itinerários e Reinos. Uma descoberta do mundo. O Gharb al-Andaluz na obra o geógrafo al-Idrisi”. Tratou-se de um congresso itinerante organizado pela Fundação al-Idrisi Hispano Marroquina, e que trouxe a Vila Real de Santo António vários estudantes, investigadores e especialistas da História do al-Andaluz, provenientes de Portugal, Espanha, Marrocos e de outros países. Entretanto passou meia década, e bem nos podemos perguntar se este congresso internacional terá suscitado o interesse do público generalista em relação à História do Gharb al-Andaluz. Constatamos que, desde o congresso al-Idrisi (e independentemente da sua provável influência), vários livros foram publicados, como “Cacela e o seu Poeta Ibn Darraj al-Qastalli”, de Ahmed Tahiri; várias exposições foram inauguradas, como o “Núcleo Islâmico”, do Museu Municipal de Tavira; e vários colóquios e conferências tiveram lugar um pouco por todo o Algarve.
Um exemplo bastante curioso ocorreu no dia 20 de Abril de 2013, onde se verificaram vários eventos dedicados à História comum entre Portugal e o Magrebe. Foi exactamente no mesmo dia que se deu a “Homenagem a Cláudio Torres” no Campo Arqueológico de Mértola; o colóquio “Portugal Marrocos: História, Arqueologia e Património”, em Portimão; a Inauguração da sala “O Legado Andalusino” em Aljezur, a apresentação do romance histórico “O Luar de Sha’ Ban”, de Renato Santos, em São Brás de Alportel, e a apresentação do livro “A Cidade Islâmica de Faro”, também em São Brás do Alportel. 
Naturalmente que todos estes eventos no mesmo dia são fruto do mero acaso. No entanto, não deixa de ser uma feliz coincidência, e que acaba por atestar o crescente interesse do público em relação à História do Gharb al-Andaluz. Terá o congresso al-Idrisi contribuído de alguma forma para este renovado interesse? Certamente que sim, e certamente surgirão, num futuro próximo, novos estudos e investigações que preservem e valorizem a singularidade histórico-patrimonial do Algarve e do al-Andaluz.