terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Início do Domínio Islâmico no Algarve (Foi há 1300 anos)




O dia 31 de Julho do passado ano de 2011 assinalou os 1300 anos da batalha de Guadalete entre o exército visigodo do rei Rodrigo e as tropas e berberes e árabes lideradas por Tarik Ali Ibn Zyad. Com a derrota visigoda os muçulmanos acabaram por se estabelecer na Península Ibérica através de conquistas militares e de tratados de capitulação. E o Algarve? A partir de quando terá efectivamente ficado sob domínio islâmico?

Segundo a historiografia tradicional, depois de Tarik Ali Ibn Zyad atravessar o Estreito de Gibraltar e vencer a batalha de Guadalete, em 711, foi a vez do próprio governador do Norte de África, Musa ibn Nusair, deslocar-se ao al-Andaluz com um exército de cerca de 18000 soldados, desta vez composto na sua maioria por árabes. Era então iniciada a conquista da Andaluzia ocidental e do sul da Lusitânia? Segundo a arqueóloga Teresa Gamito, em 718 já estavam conquistadas todas as regiões da zona Ocidental da Andaluzia, inclusive “as cidades de Ossónoba, Balsa, Lacóbriga e Ipses”. Contudo, o mais provável é que as cidades da zona ocidental da Andaluzia como Balsa, Lacobriga, Ipses e Ossónoba, tenham sido anexadas logo depois de conquistados os núcleos urbanos hispano-visigodos de maior importância, como Sevilha, tomada pela força em Julho/Agosto de 712. De resto, este é um assunto meticulosamente abordado por José Garcia Domingues em “Ossónoba na Época Árabe”. Da mesma forma, também Helena Catarino – talvez por influência de Domingues - refere ter sido por esta altura que Abd al-azir, filho do governador do Norte de África, Musa ibn Nusair, terá conquistado definitivamente o Algarve. Contudo, novas interpretações têm surgido nos últimos tempos. Segundo “Fath al-Andalus y la incorporación de Occidente a Dar al-Islam”, do catedrático Ahmed Tahiri, não terá sido Musa ibn Nusair a conquistar Sevilha pela força, mas sim Tarik Ali Ibn Zyad, mediante um acordo de capitulação onde estaria previsto o pagamento de um tributo.

Ora, a verdade é que a História é frequentemente escrita pelos vencedores, ou pelo lado mais forte… Sendo Tarik Ali Ibn Zyad um subalterno de Musa ibn Nusair, não seria digno se aquele ficasse com toda a glória, pelo que, segundo as fontes, terá sido Musa ibn Nusair e o seu filho a submeter a kura de Ossónoba (designação que corresponde à actual região Algarve). No entanto, estarão as fontes correctas? Ou terão as crónicas sido redigidas de acordo com as conveniências políticas de Musa ibn Nusair?

Seja como for, longe vão os tempos em que acreditava numa conquista sangrenta do Gharb al Andaluz. De um modo geral, as populações cristãs da Península Ibérica que foram submetidas pelos muçulmanos podem ser divididas em dois grupos: as conquistadas pela força das armas, principalmente as da planície andaluza; e as que na sequência dessa conquista, vendo a impossibilidade da luta, se renderam por capitulação. É provável que a conquista da cidade de Ossónoba - principal núcleo urbano da região até à conquista islâmica do al-Andaluz - se tenha dado através de negociações entre os governadores hispano-godos e os invasores muçulmanos, sem recurso à força. Fundamentamos esta teoria na medida em que muito dificilmente as forças da cidade conseguiriam resistir ao exército de Abd al-azir (ou até mesmo de Tarik). Por outro lado, data de 713 o mais antigo documento hispano-muçulmano conhecido: o tratado de Teodomiro, pelo que se torna verosímil que outras cidades hispano-godas, como Ossónoba, tenham encetado semelhantes negociações para a capitulação a favor dos governantes muçulmanos. Ora, é bem provável que os governantes de Ossónoba tenham procedido do mesmo modo, de maneira a salvaguardarem os seus interesses, pois temos conhecimento das facilidades concedidas a cidades como Santarém ou Coimbra, tomadas por capitulação.

 De um modo geral, o mais provável é que tanto a cidade como a região de Ossónoba tenham sido anexadas depois de conquistado o núcleo urbano de maior importância, ou seja: Sevilha. Por outro lado, se a conquista de Sevilha se deu efectivamente em Julho/Agosto de 712, é possível que a região do Algarve tenha sido anexada por capitulação no mesmo verão, razão pela qual aqui assinalamos, simbolicamente, os 1300 anos do início do domínio islâmico na região do Algarve.



Jornal Postal do Algarve, Nº1085, 3 de Agosto de 2012, p.9.

6 comentários:

António Baeta disse...

Ahmed Tahiri, que menciona neste artigo, tem, na publicação "Ibn Darraj al-Qastalli" uma referência a Balsa, como topónimo que pode estar na origem de Qastalli (Cacela), cujo domínio teria sido entregue por Tarik a um certo berbere de nome Darraj, eventualmente sétimo avô do poeta Ibn Darraj al-Qastalli.

Fernando Pessanha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando Pessanha disse...
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Fernando Pessanha disse...

Sr. António Baeta, antes de mais obrigado pela sua atenção e pelo interesse manifestado. Eu, particularmente, não creio que o topónimo "Balsa" deva ser associado à Qastalla islâmica por um conjunto de razões que se prendem com motivos de carácter cronolófico, linguístico e geográfico. Para o caso de Balsa, é possível que o topónimo remonte ao designado periodo orientalizante (séc. VIII - VI a. C.)e à fundação de uma feitoria fenícia na foz do Rio Gilão. Até porque o topónimo "Balsa" assemelha-se a "Baal Safon", divindade fenícia protectora dos navegantes. Os romanos mantiveram o nome nas duas "Balsas" por eles construídas no concelho de Tavira (uma ainda relativa ao periodo pré-romano e outra relativa ao periodo romano imperial), contudo, os espaços geográficos destas "Balsas" não correspondem à localização da qastalla islâmica, situada vários quilómetros para Este e em cronologia posterior em vários séculos. Acresce ainda que a transcrição fonética de Balsa em nada se assemelha a Quastalla. Os muçulmanos tinham a tradição de ocupar as antigas "civitas" romanas, mantendo o carácter toponímico, embora adaptando-o à sua realidade linguística. Um exemplo reside no nome latino de Faro, ou seja; "OSSONOBA" que, na trancrição fonética para árabe passa a "Ukxûnuba". Ora, tal caso não acontece entre Balsa e Qastalla. Sublinhe-se que tenho grande respeito e admiração pelo trabalho do Ahmed, mas no que respeita a este assunto tenho uma interpretação diferente.

António Baeta disse...

Obrigado pelo esclarecimento.

António Baeta disse...

Obrigado pelo seu esclarecimento.